01 fevereiro, 2015

Conto - Ainda há uma chance | Parte 1/2

Olá leitor(a), como prometido hoje e amanhã você acompanha aqui no Entre Páginas de Livros o conto Ainda há uma chance que foi escrito por mim e por um colega, Euler Duarte, em 2011 para um projeto de português/literatura quando estava no segundo ano do Ensino Médio. Espero que goste :)


Ainda há uma chance
Caíque Fortunato e Euler Duarte

Já era bem tarde, no relógio marcava dez horas da noite, eu ainda estava no trabalho, acabando de assinar alguns documentos sobre admissão de alguns funcionários. O sono a essa hora já me dominava e meus olhos já se fechavam sozinhos. Em uma dessas leves cochiladas fui acordado pelo alarme de meu relógio, que agora já marcava mais de onze horas. Vi que não acabaria aquilo hoje, então reuni todos os documentos, fichas e alguns livros que havia levado para lá, coloquei-os de qualquer maneira na minha pasta e imediatamente me dirigi ao estacionamento.

Era assim todos os dias, a mesma rotina cansativa, trabalhava praticamente o dia todo e nunca havia tirado férias, mas tinha que ser assim, já que era o vice-presidente da empresa eu tinha que dar algum exemplo para meus funcionários.

Tudo aquilo, aquele enorme império tinha sido construído com fogo e suor, com muito empenho e dedicação. Lembro-me muito bem das madrugadas que passava em claro, estudando exaustivamente para me destacar dos demais, e posso dizer com certeza, que toda essa determinação funcionou muito bem.

Chegando ao estacionamento, desliguei o alarme do meu carro, abri a porta e joguei minha pasta no banco de trás. Era um Vectra prata. Podia sentir a leveza de sua direção, ao menor toque o veículo virava por completo. Continuei meu percurso, ainda com muito sono, sorte minha que o trânsito estava tranquilo, já que eu estava dirigindo pelas ruas de São Paulo, era de se esperar horas de congestionamento.

Ao chegar ao meu apartamento, estacionei meu carro em uma das minhas vagas e fui entrando no prédio com a pasta em minhas mãos. Não havia ninguém no prédio, o silêncio reinava, apenas o som dos meus passos e da minha respiração podia ser ouvido.


Entrei no elevador, fui para meu apartamento, estava tudo escuro, então acendi as luzes. Pra eu que moro sozinho o tamanho do apartamento é um exagero, podia abrigar tranquilamente uma família de dez pessoas. Tinha tudo que se podia imaginar, e se desejar.

Atravessei minha sala de estar e larguei minha pasta em cima da mesa do meu escritório, eu estava louco para ir dormir, mas teria que terminar com minhas obrigações ainda hoje. Aqueles formulários não se preencheriam sozinhos.

Então fui para cozinha buscar um copo de café, na tentativa de espantar o sono. Peguei meu expresso e voltei para o escritório, onde também era uma pequena biblioteca. Estava todo bagunçado e revirado, livros e papéis por todos os lados. Sentei-me, coloquei o café em uma parte vaga da minha estante de livros e abri minha pasta, joguei toda a papelada em cima da mesa.

Após recolher as fichas e documentos que eu deveria assinar, vi que ainda faltavam alguns formulários, então fui revirando e folheando os livros que ali estavam. De repente uma brisa gelada vinda de uma das enormes janelas me congelou por completo. Ali naquele cenário vazio, sem ninguém pra me confortar vi que estava sozinho, um silêncio veio e bateu em meu coração, olhava ao redor, naquele enorme apartamento que mais parecia uma mansão, outras pessoas viriam tudo de bom, tudo o que desejassem. Obras de arte caríssimas, móveis importados, roupas de grife, para qualquer outra pessoa aquilo seria o paraíso, mas naquele momento para mim aquilo era pior que o inferno.

Senti que algo faltava em minha vida, alguma coisa que não havia feito estava me aborrecendo, um vazio enorme consumia minha própria alma. Até que uma enorme alegria me atingiu, lembrei de uma garota da minha escola, Sophia Medeiro, na época éramos grandes amigos.

Acho que foi numa sexta-feira, estávamos em sala de aula e era a aula de matemática. Lembro-me que ela estava muito calada aquele dia, então como amigo esperei o momento mais oportuno para ir falar com ela. O sinal tinha batido, era recreio. Levantei-me e fui até ela, me sentei ao seu lado, apenas nós estávamos lá dentro.

Com ânimo eu lhe disse um oi, para ver se ela melhorava, mas ela me olhou com um meio sorriso e respondeu com o mesmo cumprimento. Sua cabeça estava baixa, sua feição era de tristeza, aquele rosto tão delicado estava pálido e abatido, eu sabia que algo acontecera.

Me aproximei e a perguntei se algo de ruim havia acontecido. Conversamos por muito tempo e ela me explicara que estava triste, que não nos veríamos mais, pois seu pai tinha aceitado uma oferta de emprego em outro estado, não poderia mais recusar e que ela teria que mudar.

Fiquei bem triste com isso, após me dizer eu olhei em seu rosto, seus lindos olhos castanho-esverdeados estavam me observando, seus lábios estavam trêmulos, e num movimento repentino ela se jogou contra mim e me abraçou.

Apenas isso, um abraço, mas para mim foi algo grandioso, ela me abraçou tão forte que podia sentir seu coração batendo de encontro ao meu. Sua respiração ofegante foi dando lugar a um desesperado lacrimejar, e eu fiquei ali naquela sala vazia, abraçado com a que tanto amava, apenas torcendo para que aquele momento fosse eterno.

Eu realmente senti algum tipo de sentimento aquele dia, senti que talvez ela me amasse, mas não tinha certeza nenhuma do que ela queria dizer.

Sophia me disse para ficar com um livro dela, para que eu lembrasse, ou caso sentisse saudades. Era uma espécie de álbum de fotos com algumas mensagens e desenhos feitos por ela. Eu claro que aceitei, o guardei em minha mochila e fui acompanhá-la ao ponto de ônibus.

No caminho mesmo sem aparentar, eu estava desesperado. O que eu deveria fazer? O amor da minha vida estava indo embora para sempre, bem na frente dos meus olhos, e nem ao menos ela sabia dos meus sentimentos.

Todo o percurso foi um enorme silêncio, eu notava que ela olhava para mim, como se esperasse por algo, mas eu desviava o olhar, não fazia ideia do que fazer, eu estava totalmente cercado e aquilo me incomodava profundamente.

Percebi que aquilo também estava a entristecendo, ela devia estar pensando que eu pouco me importava com a ida dela, mas não era verdade, o que me prendia as correntes da solidão era meu próprio orgulho, eu era orgulhoso demais para confessar meus sentimentos, era orgulhoso demais para me dizer apaixonado.

E foi assim, esperamos o ônibus dela chegar sem trocar uma única palavra ou olhar, ela apenas me deu outro abraço e embarcou. Foi a ultima vez que a vi.

Confesso que fiquei muito abalado com aquilo tudo, a ponto de ter que esconder o livro que ela me dera, para não arriscar vê-lo e me lembrar de como era ela, me entristecendo mais ainda.

Eu o guardei, nunca o li, nem ao menos o abri, só o guardei fora da minha vista todos esses anos.

No meio de todo esse luxo e de toda esta comodidade, um grande sentimento de arrependimento me corroía por dentro, eu tinha certeza que meu coração não aguentaria tamanho fardo.

Minha vida toda foi vivida pelo dinheiro, pelo ganhar, pela ganância de querer cada vez mais, sempre acumulando tudo, e eu ainda me considerava feliz.

Eu dei as costas ao que me importava, a única pessoa que realmente me amou foi ela, mas eu virei o rosto e neguei a mim mesmo que poderia ser feliz. De repente algo caiu de um livro que estava em minhas mãos, era um papel dobrado, já amarelado pelo tempo, parecia estar ali a anos. Abaixei-me para pega-lo e para minha surpresa era um bilhete. Congelei-me ao lê-lo ...

Continua...
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